Conto de DSI

Por: Robson Dias Martins – Mestre em Biblioteconomia pela UNIRIO, bibliotecário da UERJ e membro da REDARTE/RJ

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Era mais uma segunda-feira aparentemente comum na Biblioteca Universitária do Vale das Emas. Os alunos do curso de história folheavam tediosamente seus livros em um estudo sacrificante para as provas finais que se realizariam ao término do dia. O professor Giranildo havia sugerido a leitura na biblioteca por se tratar de um ambiente calmo e silencioso, mas ele não imaginava o que poderia acontecer naquele espaço.

Na sala dos funcionários, João, bibliotecário-chefe contava entusiasmadamente suas aventuras pela Serra Gaúcha no último fim de semana. Ele e seu namorado Patrick haviam percorrido as cidades de Gramado, Canela e Caxias do Sul em peripécias pelas trilhas e cachoeiras do sul do país.

Judith, excelente catalogadora, ouvia atentamente as palavras de seu amigo. Ela, bibliotecária divorciada, mãe de três adolescentes rebeldes, não lembrava qual fora sua última aventura na vida. No máximo, saboreava as estripulias dos filhos e as experiências de seu colega de trabalho, um bibliotecário bem diferente dos rótulos tradicionais da profissão, um rapaz altivo, fisiculturista profissional e desejo da maioria das jovens que estudavam naquela instituição. No entanto, Judith também tinha suas próprias aventuras pelo mundo imaginário da literatura. Ali ela vivenciava as mais diversas loucuras que uma mulher poderia fazer. Alguns dias era heroína, em outros princesa e, em alguns momentos, colocava sua raiva para fora através de maldosas feiticeiras. Ela podia ser alguém diferente a cada dia, dependia apenas do seu fértil cérebro fantasioso e criativo.

Tudo parecia normal naquela chuvosa manhã, quando Thiago, aluno do penúltimo ano de engenharia, entrou aos berros pela porta da biblioteca. Ele era conhecido pelo comportamento peculiar. Possuía delírios e alucinações constantes, tinha mania de perseguição, fuga da realidade e alto grau de desconfiança dos humanos. Sua raiva e hostilidade eram latentes. Aos gritos, ele dizia que estava sendo perseguido pelos funcionários da biblioteca, que eles queriam saber tudo de sua vida e estavam tentando manipular seus pensamentos!

Todos pararam seus afazeres para tentar entender o que estava acontecendo. João ao perceber que havia uma anormalidade na biblioteca dirigiu-se até o balcão de atendimento para resolver o problema.

Chegando lá percebeu que se tratava de uma grande confusão, todos falavam ao mesmo tempo e o zum-zum-zum já corria a universidade. Bradou rispidamente pedindo silêncio e respeito aos alunos que estavam estudando. Dirigiu-se ao aluno em crise e questionou o ocorrido.

Thiago desviou um olhar diabólico para o bibliotecário e disse: “Ele é o culpado! Todos os dias quando acordo pela manhã encontro no meu celular mensagens e e-mails enviados pela biblioteca. Estou sendo perseguido e vocês são tendenciosos! Querem que eu leia o que mandam! Um absurdo! Coisa de farsantes”! E num discurso confuso completou com as palavras de Jenny Lawson “Eu quase nunca uso a.C e d.C. para descrever períodos de tempo, uso AKCE (Antes de Kirk Cameron Enlouquecer)! É assim que encaro o tempo”!!!

Todos ficaram abismados com as palavras proferidas pelo aluno. Entenderam que ele necessitava de explicações e, definitivamente, precisava se acalmar.

Judith, no alto de sua sabedoria profissional e maternal, convidou o rapaz para tomar um café. Ela sabia que o menino precisava de atenção e paciência. Explicou-lhe que a razão para receber alertas diários era o novo Serviço de Disseminação Seletiva da Informação (DSI) da biblioteca, um atendimento personalizado que informa e atualiza o usuário quando novos documentos chegam à unidade. Os dados são enviados diretamente aos perfis identificados no sistema. A bibliotecária foi além e explicou para o aluno que ao realizar sua inscrição ele havia preenchido um formulário de cadastro que definia suas áreas de interesse. Atônito, Thiago olhou para a bibliotecária como se ela fosse algum tipo de Avatar. Em sua cabeça era impossível que os bibliotecários pudessem executar um serviço tão inovador e eficiente. Ele derrubou a xícara de café e saiu em disparada.

Dois meses depois, Thiago continuava recebendo os alertas. Mais calmo, ele resolveu analisar os conteúdos e percebeu que abordavam o tema de sua monografia. Sem graça com a situação começou a utilizar todos os documentos sugeridos, mas ia até outra biblioteca para consultar os livros. Ao final do período, cerca de sete meses após o ocorrido, Thiago entra com uma enorme caixa na biblioteca do Vale das Emas. Os funcionários ficam assustados e sem deixar transparecer chamam o chefe João. Rapidamente ele vai até o balcão e assisti o menino cabisbaixo e com um tímido sorriso no olhar dizer: “Por favor, gostaria de falar com a bibliotecária”. João pergunta no que pode ajudar e o rapaz relata que estava equivocado e confuso com a novidade de escrever um trabalho de conclusão de curso. Havia passado por momentos difíceis, mas que desejava do fundo do coração agradecer a todos da biblioteca. Graças às mensagens diárias ele conseguiu produzir satisfatoriamente seu trabalho e gostaria de desculpar-se com a doce bibliotecária que lhe falou sobre um serviço revolucionário na vida dos pesquisadores.

Judith já ouvia a conversa com lágrimas nos olhos, ela abraçou o menino como se abraçasse seu filho, afagou seus cabelos e recebeu o presente. Ao despedir-se ele agradeceu e ela entendeu que essa era uma de suas aventuras cotidianas e que sua contribuição zelosa colaborava para formar cidadãos. No fim daquele dia, a bibliotecária arrumou sua bolsa, colocou sua capa para sair na noite fria e como uma super-heroína partiu feliz para sua casa. Tinha a certeza que seu dever e missão estavam cumpridos. Ela precisava descansar afinal novas aventuras estão por vir.

Publicado em: 20.07.2016

 

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